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Elos Clube de Itararé
Itararé - A História


ITARARÉ FOI FUNDADA DUAS VEZES
( livro "VIVENDO" de Cecília Duarte Fogaça)

Era uma vez uma vasta região de campos e matas conhecida como Campos Gerais, habitada por índios e animais selvagens como antas, capivaras, onças, lobos e outros mais. A presença de índios nessas terras deu origem às lendas que envolvem o rio a que eles deram o nome de Itararé.

Naquele tempo, por volta de 1661, os bandeirantes chefiados por Fernão Dias Pais Leme, que procuravam ouro, prata, pedras preciosas, além de índios para escravizar, também estiveram por aqui, fizeram suas paradas para descanso e, certamente, aprisionaram muitos indígenas.

Na época não havia estradas, apenas as trilhas abertas pelos bandeirantes. Mais tarde, cerca de 1693, as trilhas tornaram-se caminho dos tropeiros e condutores de gado, que passavam por estes campos e iam comprar animais no Rio Grande do Sul para vendê-los na feira em Sorocaba.

A viagem no lombo de animais era longa e cansativa, e eles precisavam repousar pelos caminhos, ou melhor, pelas trilhas abertas nas matas. Assim, de distância em distância, os tropeiros paravam para descansar em pequenas cabanas construídas para pouso, deixando portanto, diversas pousadas em toda essa grande região. Como alguns tropeiros ali permanecessem por mais tempo, plantando e colhendo, as cabanas aumentaram dando origem a povoados. Em nossa região, as cabanas foram construídas acima do córrego da Prata onde os tropeiros podiam se abastecer de suas límpidas águas. Com o tempo formou-se um povoado que os habitantes chamavam "Tararé", devido ao rio que corre alguns quilômetros mais abaixo e batizado pelos índios com o nome Itararé - pedra que o rio cavou.

Assim começou o Bairro Velho, portanto, Itararé. Os tropeiros são considerados seus primeiros povoadores, como afirma o escritor Aluisio de Almeida: "Foram os tropeiros com suas famílias, os primeiros povoadores de Itararé, naqueles tempos em que apenas um aglomerado de choupanas existia junto ao riacho de águas claras..."

Em 1725 as terras dos Campos Gerais, nas partes chamadas Campos de São Pedro, foram divididas em sesmarias, passaram por vários donos, e entre eles, a Marquesa de Santos e seu esposo Rafael Tobias de Aguiar. Seus herdeiros as venderam a José Custódio de Melo Camargo (1869). Os descendentes deste último vieram tomar posse da terra que lhes cabia.

Porém, a fundação de Itararé foi envolta numa história muito mais bonita, quando estes campos já formavam a Fazenda São Pedro e muitos povoadores vindos de outras terras já residiam nestas paragens.

A FUNDAÇÃO DA CAPELA

Aos poucos, várias famílias vieram participar da vida nos campos de São Pedro de Itararé, e entre outras, os Assis Ribeiro, Furquim, Amaral Mello, Carvalho, Dias Batista, Queiroz, Fiuza, Fogaça e outros. Suas casas ficavam em vários locais da imensa área ocupada pela fazenda. Cada qual cuidava de seus afazeres, ora na lavoura ou criação de gado, ora no fabrico de farinha de milho, de açúcar ou aguardente, além de outros cuidados necessários à vida, como por exemplo, a coleta de impostos na Barreira, referentes à passagem de animais, pessoas ou mercadorias.

De vez em quando as famílias reuniam-se numa reza, trocavam idéias, faziam planos, e assim surgiu o desejo da construção de uma Capela.

Havia muita amizade entre os moradores e as visitas eram constantes entre as famílias, sendo bastante freqüentes as que vinham da vizinha Fazenda Morungava - os Canto e Silva, e as da Vila de Faxina- Coronel Licínio Carneiro de Camargo e Cônego Sizenando, Vigário daquela vila. O Cônego vinha fazer rezas na Fazenda e batizar os filhos dos moradores. Todos eles tiveram participação na fundação da Capela, seja através de doação de dinheiro ou terras, como o fez o Coronel Licínio e ainda pela doação da imagem de N.Sª da Conceição, que o Coronel Jordão do Canto e Silva mandou vir da Bahia, ficando guardada em casa do coletor de impostos, Major João de Almeida Queiroz. Este, com a ajuda do Cônego Sizenando escolheu o mais belo lugar para erigir a Capela, tendo ele próprio dirigido a sua construção.

Segundo relato nos Apontamentos Históricos de Itararé, quando o Major Queiroz, num bonito dia de dezembro de 1879, plantou a primeira estaca da Capela que daria início à fundação oficial desta cidade, foi auxiliado pelo Cônego Sizenando da Cruz Dias, pelo carpinteiro Jorge de Assis Ribeiro, por Joaquim da Rosa Fogaça e Antonio de Andrade Fogaça, que tiveram a honra de participar desse feito.

A pequena Capela erguida de pau `a- pique e coberta de sapé é considerada como o marco inicial da fundação de Itararé porque, na época, era condição esencial existir uma Capela com patrimônio territorial para iniciar-se um povoado. Acontece que este já existia, mas não foi levado em consideração...

Com o tempo, surgiram ao redor da Capela várias casas com seus moradores e em 1885 esse povoado foi elevado à Freguesia da Capela de N. S. da Conceição de Itararé. Mais tarde, a Vila passou a chamar-se São Pedro de Itararé, o mesmo nome da antiga fazenda e, em 28 de agosto de 1893, a Lei nº 197 do Estado de São Paulo, criou o Município de São Pedro de Itararé.

Em 1901 a Vila foi elevada à categoria de cidade pela Câmara Municipal e então passou a chamar-se somente Itararé, nome indígena que certamente se deve a locais como a Gruta da Barreira onde pode ser apreciada a passagem subterrânea do rio do mesmo nome.

E assim, Itararé foi fundada duas vezes, tendo também dois padroeiros:oficialmente, Nossa Senhora da Conceição, e São Pedro, aclamado pelos itarareenses.

UM POUCO DA HISTÓRIA DE ITARARÉ
Eunice Brito Tatit (Livro Folhas Ao Vento)

Nada havia nesses primeiros tempos da vida da comunidade social da Freguesia de São Pedro de Itararé, que separasse as famílias. A primeira discordância, sobre a qual seria o santo padroeiro da Vila, fora superada, de início. Esse desentendimento, levantado entre os moradores da Fazenda de São Pedro e os fundadores e construtores da primeira capela, já estava esquecido. Os primeiros eram de parecer que o Orago da nova capela deveria ser São Pedro, o primeiro santo de devoção nas terras da fazenda; enquanto que os últimos, pessoas vinda de Itapeva da Faxina, optavam por Nossa Senhora da Conceição. A questão foi decidida quando o Cel. Licínio, o primeiro doador das terras para o patrimônio, deixou expressa, no ato da doação, a condição de ser Nossa Senhora da Conceição a padroeira da nova Capela. Na inauguração o Cel. Jordão do Canto e Silva doou a primeira imagem e toda a rixa caiu no esquecimento.

Inaugurada a Capela, o desejo unânime era a formação da Vila e todos os pensamentos convergiam para esse fim. A política,incipiente, não dava ainda, motivos a maletendidos e ódios, - resultado funesto de ambições e egoísmo. A religião católica, sendo a única praticada na ocasião, era motivo apenas de união e influenciava benéficamente na vida social. As famílias mantinham entre si, relações cordiais, alegrando-se e sofrendo juntas. Crianças nasciam. Jovens casavam-se. Tropeiros partiam ou chegavam de viagens, - e todos esses fatos eram partilhados com amor.

Nos fins do século XIX as comunidades basileiras eram formadas de classes bem distintas. de um lado, os bem nascidos, herdeiros de nome respeitável; descendentes de bandeirantes, cujos troncos remontavam à elite formada no Planalto de Piratininga, oriundos das primeiras famílias para lá transferidas por Martim Afonso de Souza e que formavam um núcleo populacional fechado.

Havia, ainda, as famílias vindas do Paraná, de ascendência européia, algumas cujos avós teriam aportado com o séquito de D.João VI, em 1808. Descendência não muito remota no Brasil e bem notada pelos traços fisionômicos, pela educação mais esmerada e pela postura orgulhosa.

Além dessa aristocracia da época, viviam aqui os portadores de fortunas não explicadas, não herdadas, mas esses eram diferenciados e nunca admitidos como iguais. Existia, ainda, a classe dos escravos libertos, antes ou depois da abolição; e não considerados como "classe social". Muitos deles assumiam o foro de seus amos, dos quais herdavam, muitas vezes, o nome da família e, conforme a classe do patrão a que serviam, colocavam-se mais ou menos separados de seus irmãos de raça.

Os agrupamentos sociais faziam-se por afinidades de espírito ou por interesses vários: familiares, comerciais, políticos ou religiosos; o fato social, porém, era o mais importante. "Lê com lê, cré com cré", o adágio popular da época, dizia bem da discriminação instintiva com que as pessoas se relacionavam.

Pouco a pouco, porém, quase sem perceber, começou-se a fazer a troca de posições. Enquanto a classe "alta" esbanjava suas fortunas e abusava das prerrogativas de que dispunha, não conseguindo manter-se em seus pedestais, as pessoas mais humildes procuravam melhorar e subir de posição, graças ao trabalho e instrução, valores que as mantinham em bases cada vez mais sólidas dentro da sociedade.

Dia viria, e não muito longe, em que todas as classes ficariam diluídas no cadinho formado pelo sangue do índio, do negro, e do imigrante, apresentando como produto: o homem brasileiro. Na Vila de São Pedro do Itararé o sangue do imigrante começou a circular na última década de 1800, com a chegada de alguns italianos e alemães e, ainda, com os de famílias árabes que, com seu comércio, trariam mudanças na vida dos habitantes. Mas a mistura de classes começou por motivos econômicos que motivaram alguns casamentos. As classes sociais ainda não se misturavam. Como caso concreto, temos as oito moças da casa grande da esquina, do outro lado da Capela. Nunca realizariam seus sonhos de felicidade, a não ser uma que casou com um Amaral Mello. As demais viveram até o fim de seus dias em angustiante frustração, pois a família recusava receber outro pretendente que não fosse da mesma classe social. Presenciaram a morte de seus pais e uma a uma foram deixando o mundo. A última faleceu em dolorosa situação de solidão, velhice e doença, amparada por um sobrinho bom. Assim era a comunidade da Vila, naquele fim de século, dentro de convicções muito arraigadas, pelas dificuldades de comunicação com os centros mais desenvolvidos.