
Getúlio Vargas em Itararé A REVOLUÇÀO DE 1930 EM ITARARÉ ( Livro VIVENDO - Cecília Duarte Fogaça) Estávamos em 1930, e eu cursava a última série ginasial. No dia 3 de outubro, cheguei à escola como de costume e, em lugar de aula, havia um tumulto. Ficamos surpresos e desorientados com a notícia que corria - havia estourado uma revolução para depôr o Presidente Washington Luis. Não queríamos acreditar que fosse verdade. Não éramos pessoas informadas pelo rádio e televisão como somos hoje. Naquele tempo, televisão não havia no Brasil, e rádio, existia,mas não era em nossos meios. Os jornais vinham atrasados e as notícias já não eram mais novas quando chegavam. O país estava atravessando uma crise econômica causada pela queda do preço do café, fechamento de fábricas e descontentamento com o resultado das eleições para Presidente da República vencidas pelo paulista Júlio Prestes, candidato do Governo. O Presidente Washington Luis, também paulista, havia quebrado o acordo da política do café-com-leite entre Minas e São Paulo porque não escolheu um mineiro para disputar a Presidência. O candidato da oposição, Getúlio Vargas, do Rio Grande do Sul, alegou ter havido fraude nas eleições e começou um movimento contra o Presidente, fortificado por Minas Gerais e Paraíba. O assassinato de João Pessoa, o Vice de Getúlio, veio causar a revolução. Naquele dia, a escola estava em alvoroço. Os comentários eram os mais desencontrados. Então os professores vieram nos informar a verdade e que as aulas estavam suspensas por prazo indeterminado, enquanto durasse a revolução. As escolas e as repartições públicas seriam ocupadas pelos soldados que começavam a chegar. Voltamos para casa alarmadas com os comentários, sem saber o que esperar. Não tínhamos idéia do que fosse uma revolução. Até aquela data eu não vira revolução alguma e não tinha medo por desconhecer o perigo. Contei à minha tia que ficou desesperada. Consegui convencê-la a deixar que eu partisse para minha casa, em Itararé. Ela estava assustada demais para me impedir. Tomei o trem depois do almoço e viajei com algumas colegas que também voltavam para suas casas. O trem estava lotado de gente aflita que procurava reunir-se à família. Quando chegamos, fomos recebidas por grande quantidade de soldados que guardavam a estação; ficamos assustadas, alguns tinham a cara enfezada e maldosa, e outros aproveitavam para nos dirigir gracejos. Era ali seu Quartel General. Pelas ruas só transitavam soldados. Meus pais não sabiam que eu estava chegando, não foram me encontrar. Fui para casa, que era longe, já quase noite e senti muito medo. Mamãe assustou-se ao me ver chegar e ao mesmo tempo sentiu alívio. - Graças a Deus que você veio! Estávamos muito preocupados por sua causa ! A cidade estava em silêncio. As pessoas não saíam mais às ruas. Só se ouvia um tiroteio que vinha de longe, lá do lado da Barreira, na Fazenda Morungava, onde os gaúchos estavam entrincheirados, a cerca de três quilômetros da cidade. Itararé, pequena cidade paulista, separa o Estado de São Paulo do Estado do Paraná através de formidável barreira formada pelo encachoeirado rio do mesmo nome, cujas margens são paredões de pedra que chegam a ter vinte metros de altura. O rio às vezes se esconde por baixo das pedras e torna a aparecer dentro de maravilhosa gruta, como um presente da natureza. E era lá, depois da barreira, já do outro lado do rio, no Paraná, que os gaúchos se preparavam para a batalha. A cidade estava cheia de soldados. Quase não dormíamos e estávamos amedrontados com o barulho causado pelos tiros de canhões e metralhadoras que faziam barulho noite e dia. Não tínhamos sossego. Aviões passavam a toda hora por cima de nossas casas e tínhamos medo que jogassem granadas. Estávamos com tanto medo que não sabíamos se os aviões eram amigos ou inimigos. Os boatos eram muitos e as pessoas estavam aterrorizadas. Surgiu a notícia que a cidade seria bombardeada, e o povo fugiu para os sítios e fazendas, ou para outras cidades. As pessoas, em desespero, fugiam de trem, de carroça, a cavalo, a pé e até na carrocinha do leiteiro. Os carros, que eram poucos, foram requisitados pelos soldados. Quando as pessoas abandonaram suas casas, começaram os saques. Embora a culpa recaísse sobre os soldados, nós sabíamos que, além deles, havia pessoas que ficaram e que se aproveitavam da situação para roubar as casas de seus conhecidos, saquear lojas e armazéns, causando grande prejuízo. Mamãe não sabia o que fazer. Eram nove filhos chorando de medo. Papai não queria sair de Itararé, para proteger o seu armazém e evitar que fosse saqueado. Ele tinha um compadre chamado Benedito Garcia, dono de um sítio no Rodeio, um bairro da zona rural. O compadre mandou uma carroça para nos buscar e nós a enchemos com nossas malas, trouxas de lençóis e cobertores. Saímos cedo, depois do café e, levamos duas horas para chegar lá porque a estrada era só buracos. A carroça estava muito pesada com a mudança e mais dez pessoas, além do carroceiro. Ia vagarosamente. Tive pena dos cavalos. Chegamos ao sítio. Era uma casa grande, mas não muito boa. Havia lugar para todos nós. Tínhamos levado uma verdadeira mudança, até os colchões de palha de milho. Dormíamos num só quarto, no chão. Não havia luz elétrica e as crianças estranharam muito. Uma cozinheira fazia comida para umas trinta pessoas. Na hora de comer, cada qual pegava um prato e sentava em qualquer lugar: na porta da cozinha, embaixo das árvores, nos tocos que existiam espalhados por ali. Só as crianças comiam na mesa. Recebíamos sempre, notícias de papai dizendo que estava bem, que os soldados paulistas tomaram conta da cidade, mas que a qualquer momento poderia ser bombardeada pelos inimigos. Ficamos no sítio cerca de dez dias. Mamãe não estava mais recebendo notícias de papai e estava desesperada para voltar. A cada dia que passava, ficava mais aflita. Então a comadre achou melhor nos mandar de volta e enfrentar o perigo. Regressamos, novamente de carroça. Papai ficou muito contente em nos ver, apesar do perigo que corríamos. Ficamos fechados em casa por vários dias. Itararé estava condenada a ser bombardeada no dia 24 de outubro, ao meio dia, porém isso não aconteceu. Na manhã desse mesmo dia foi proposta a rendição, porque o presidente Washington Luiz já tinha sido deposto. Não houve a temida batalha. Felizmente tudo acabou bem. O barulho e o medo duraram dezenove dias. Foi grande a alegria quando correu a notícia de que havia terminado a revolução e que Getúlio Vargas passaria por nossa cidade, vindo do Sul, a caminho do Rio de Janeiro. Os comentários eram um só - a espera de Getúlio, vê-lo passar vitorioso, por Itararé. No dia seguinte à rendição, os soldados gaúchos entraram na cidade e desfilaram pelas ruas, com seus armamentos, festejando o novo Governo e a esperança de uma vida melhor. As pessoas que permaneceram na cidade abriram as suas portas para comemorar o fim da revolução. Soltaram rojões, deram vivas, foi imensa a alegria por tudo haver terminado bem, e principalmente, alegria daqueles que eram a favor de Getúlio, seus numerosos partidários. As ruas que antes só tinham soldados, agora estavam cheias de famílias que saíram para comemorar. Pouco a pouco, os soldados foram se retirando e Itararé voltou à vida normal. A cidade estava em festa. Getúlio ia passar de trem por Itararé e todos queriam vê-lo. Nos dirigimos então para a estação que mais parecia um formigueiro, de tanta gente que lá estava; todos queriam ver Getúlio, mas ele ainda não havia chegado. Fomos aos poucos, avançando em meio à multidão, nos aproximando cada vez mais da plataforma. Mas houve muio demora, cansamos de esperar e resolvemos ir embora. Soubemos que Getúlio Vargas chegou, festivamente, às 14h. Recebeu as homenagens dos itarareenses e posou ao lado de pessoas de destaque, seus partidários, deixando para a posteridade a lembrança dos primeiros momentos de sua glória. A jovem Adonida- conhecida como Morena, filha do Prefeito Paulo Ferreira, nomeado pelos gaúchos, entregou a Getúlio um ramo de rosas. Juntamente com Getúlio, Itararé entrou para a história:- ela, como a pequena cidade onde as forças do Governo, em número menor, enfrentaram e resistiram aos ataques das tropas revolucionárias; ele, como o grande Estadista que veio do Sul, através de uma revolução, e tornou-se um dos mais famosos Governantes do Brasil. Apesar de ter sido um Ditador, tornou-se querido pelo povo, que depois o elegeu Presidente da República através de eleições. Foi ele que instituiu o salário mínimo, o voto secreto, e também, o voto feminino, valorizando a mulher brasileira, permitindo que ela se elevasse entre os homens, que sua opinião fosse ouvida e levada em conta, considerada. Dentre os muitos benefícios, criou as Leis Trabalhistas, dando melhores condições e garantias aos trabalhadores brasileiros. Esse motivo já basta para que a imagem de Getúlio permaneça viva entre a classe trabalhadora. Que Deus ilumine seu espírito pelo bem que fez a milhões de brasileiros.

Os gaúchos desfilam em Itararé |