A REVOLUÇÃO CONSTITUCIONALISTA - 1932 ( livro "Vivendo"- Cecília Duarte Fogaça) Estávamos nos primeiros dias de julho, quando a cidade ficou em alvoroço. Corria a notícia de que havia estourado outra revolução, só se falava nisso e não demorou a confirmar-se com a chegada de numerosos trens de soldados e enchendo a cidade com eles. A princípio, ocuparam a Estação Sorocabana e todo o seu pátio, e quando faziam soar as cornetas alarmavam ainda mais a assustada população. Continuaram a chegar sempre mais soldados e ocuparam o Cine São Pedro, o Cine São José e o Grupo Escolar de Itararé, que serviu como hospital de sangue. Ocuparam todos os prédios grandes e ainda foram acampar em vários lugares, entre eles, a chácara do Sr. Janjão Carvalho, no local onde é hoje a Praça São José, na Vila Osório. Na ocasião, ali era apenas um grande campo com várias árvores e uma casa de madeira com varandas ao redor. O movimento nas ruas era só de soldados. Muitas casas de comércio foram requisitadas por eles para fornecer os alimentos necessários aos combatentes paulistas. Em troca, entregavam aos comerciantes um comprovante ao valor requisitado, causando com isso enormes prejuízos. Somente muitos anos depois alguns conseguiram receber parte do que perderam. O povo estava desesperado. Guardava ainda as lembranças da última, a Revolução de 1930. Começou a Revolução Constitucionalista de 1932. Getúlio Vargas governava sem ter uma Constituição. Os paulistas, em especial, os fazendeiros de café, estavam insatisfeitos com a derrota na revolução de 1930 e perda do controle do governo, como até então possuíam. Os paulistas estavam descontentes não só por razões econômicas, como também, políticas. Getúlio nomeou interventores, na maioria tenentes, para governar os Estados. No entanto, políticos à sua volta impediam que fosse nomeado um paulista para governar São Paulo. Getúlio nomeou então, como interventor, o tenente pernambucano João Alberto. O povo sentia-se humilhado; passou a se movimentar exigindo uma Constituição. Em outros Estados, o desejo era o mesmo; o movimento cresceu, em maio houve a morte dos estudantes (M.M.D.C.), e no dia 9 de Julho explodiu a revolução. EM ITARARÉ Nem bem tínhamos esquecido o barulho da outra e já tínhamos mais uma a nos amedrontar. Continuaram a chegar trens de soldados, na maioria, jovens estudantes de escolas superiores, voluntários sem nenhuma experiência que juntavam-se aos soldados da Força Pública e, cheios de entusiasmo afirmavam que "ninguém passaria a Barreira"; dizem que ao começar o barulho, foram os primeiros a fugir das trincheiras, em pânico. Mas, dizem também, que esse fato foi inventado por um escritor. Quando começaram os combates na Barreira, o tiroteio era dia e noite, e o barulho ficava ecoando em nossos ouvidos. À noite, podia ser visto da cidade, lá no alto dos cafezais da Fazenda Morungava, o céu vermelho colorido pelo fogo dos canhões. Os disparos vinham assobiando numa tocha de fogo, aterrorizando todas as pessoas. Corriam boatos de que a cidade seria bombardeada e então, as luzes eram apagadas a fim de que não fosse facilmente localizada. Muita gente assustada fugia para os sítios, fazendas ou cidades vizinhas. Todos pensavam em fugir, mas muitos tinham dúvidas, temendo deixar suas casas e estas serem saqueadas. Dizia-se que o inimigo iria envenenar a água da cidade. O Prof. Ziller, proprietário do Ginásio Rio Branco que ficava na Praça Coronel Jordão, tinha organizado uma Linha de Tiro e colocou os moços para protegerem a caixa d'água. Quando começaram os tiroteios, os rapazes abandonaram a guarda e também fugiram. Depois de finda a revolução, isso serviu de riso na cidade. PERIPÉCIAS DA POPULAÇÃO EM FUGA Um avião paulista sobrevoava Itararé, acabando por assustar àqueles que ainda não tinham fugido. Granadas atingiram a torre da Igreja Matriz, casas da rua São Pedro, o campo do Fronteira, o quintal do Sr. Alfredo de Souza e muitos outros lugares. Vizinhos deste último, a família do Sr. Alberto Bandoni aprontava-se para deixar a cidade. Sua mãe, D. Esterina, havia terminado de colocar pães para assar no forno do quintal e que seriam levados na viagem. O grande estrondo causado pela explosão, ali tão próximo, fez com que ela desmaiasse e caísse quase em cima das brasas que havia tirado do forno. Não era possível permanecer por mais tempo na cidade. Reuniram o que foi possível e dirigiram-se de carroça, para o Bairro do Rodeio. Não conseguiram passar, pois havia sido construída uma barreira pelos soldados; tiveram que voltar e tentar fugir no último trem que sairia à noite. O barulho continuava. Era cerca de 9h da manhã e estávamos no quintal, perto do tanque. Nesse instante, um tiro de canhão passou assobiando e atingiu uma casa na esquina do Largo São Pedro, a duas quadras de onde estávamos, destruindo o canto da casa e fazendo terrível barulho. Papai, trêmulo de susto, mandou que mamãe aprontasse as malas, se preparasse para fugirem. À noite, a estação estava cheia de pessoas que fugiam em meio à escuridão da cidade levando o que podiam; crianças assustadas iam chorando. Meus pais fecharam a casa e fugiram para Itapetininga. Alguns partiam sem ter um destino certo, não sabiam para onde ir. O Sr. Alberto Bandoni levou seus pais, esposa e filhos para a cidade de Buri, onde seu cunhado tinha um irmão. O tiroteio continuou forte durante todo o dia, parecia que os tiros iam cair sobre nós. Eu não tinha vontade nem de comer, tanto era o medo. Nessa noite, eu e meu marido também fugimos, fomos para a cidade de Faxina, hoje Itapeva; fomos todos no último trem a deixar a cidade. Antes de fugirmos, enrolamos os colchões protegendo-os com sacos de estopa e recolhemos nossas galinhas dentro de casa, porque não queríamos que fossem roubadas. Deixamos um saco de milho espalhado pelo chão e a torneira da cozinha semi-aberta, escorrendo apenas um fiozinho para que não lhes faltasse água. O trem saiu às 22h e só chegou de madrugada à Faxina, porque em cada estação ficava parado para deixar passar trens de soldados. Meus pais e as crianças continuaram a viagem para Itapetininga. Eles e os Bandoni ficaram na estrada o dia inteiro, sem água e alimento para as crianças que choravam de fome. Não esperavam que a viagem fosse demorar tanto e o lanche acabou, pois eram muitas pessoas para serem alimentadas. Os Bandoni chegaram a Buri na noite do outro dia e cansados como estavam, dormiram como foi possível. Na manhã do dia seguinte, ao sair à rua para comprar pão, o Sr. Alberto Bandoni encontrou soldados fazendo trincheiras logo em frente à porta da casa onde estavam hospedados. Eles o avisaram que ali ia haver um combate e mandou que fugissem. E todos trataram de fugir num trem que os soldados lhes arrumaram, mas antes cozinharam depressa uma panela de arroz para a viagem. Foram também para Itapetininga e alojaram-se em uma casa vizinha da que estavam meus pais. A SITUAÇÃO EM ITARARÉ Em Itararé, nem todos apoiavam os constitucionalistas. Na cidade havia muitos partidários do Governo que preferiram continuar ao lado de Getúlio. Dentre eles, o Prefeito Paulo Ferreira (2ª gestão 10-04-1931 a 20-07-1932), e o jornalista Walfrido Rolim de Moura que o sucedeu, eram getulistas ferrenhos, assim como muitas pessoas representativas da cidade. Por parte deles não havia nenhum interesse em impedir a entrada dos gaúchos e, naturalmente, agiram de acordo com esses princípios. O JORNAL "SUL DE SÃO PAULO" era violentíssimo e fazia ataques diretos aos adversários de Getúlio, com palavras e títulos sensacionalistas. Segundo relato de Paulino Rolim, o Cel. "Comandante da Praça" mandou chamar seu pai, o jornalista Walfrido Rolim de Moura, ao seu Gabinete, instalado na estação ferroviária, proíbiu-o de continuar escrevendo, fazendo-lhe ameaças. OS GAÚCHOS ERAM ESPERADOS COMO ALIADOS As forças revolucionárias aguardavam os gaúchos, na certeza de que viriam como aliados e que haveria um pequeno número de inimigos. Porém, não foi isso que aconteceu. Em número colossal, o Rio Grande do Sul veio contra os Constitucionalistas e trazendo forças do Paraná e Santa Catarina, além de pesada artilharia. De certa forma houve uma traição:- o Rio Grande do Sul estava "com os pés em duas canoas", isto é, também desejava a Constituição, mas acabou decidindo manter-se fiel ao Governo; suas tropas vieram firmes em direção à Barreira e encontrou a resistência paulista, resultando num barulho muito grande que assustou toda a população. Apesar de possuir uma barreira natural,quase que intransponível, formada pelo rio e seus paredões na região próxima à ponte, divisa entre São Paulo e Paraná, Itararé não estava suficientemente fortificada. Esperando os sulinos como aliados, não destruíram a ponte da estrada de ferro, conforme contava o sr. Mário Gomes Gaya. Quando perceberam o perigo tentaram bloquear a linha com uma locomotiva, mas esta acabou tombando na curva antes da Barreira, deixando os trilhos desimpedidos. Manuel Paixão, o ferroviário que manobrou a máquina, comentou o fato em casa do sr. Vicente Ferreira. As extensas fronteiras ao longo do rio também ficaram desprotegidas. Os paulistas enfrentaram valentemente o inimigo que possuía superioridade numérica; o combate foi intenso. Porém, os constitucionalistas não estavam bem preparados. Havia uma quantidade imensa de voluntários muito entusiasmados, mas sem nenhuma prática e, além disso, havia falta de munição, pois as balas que vieram não cabiam nos fuzis e os estragavam. Os gaúchos conseguiram avançar causando muita confusão penetrando por lugares que não estavam protegidos. Os constitucionalistas perderam posições em locais estratégicos para a defesa. Um chefe do alto comando constitucionalista veio à Itararé e, após reunir-se com os demais oficiais, ordenou a retirada das tropas da Barreira - lugar privilegiado para a defesa -, com a intenção de preparar outra, mais para dentro do Estado. O ITARAREENSE NI LOBO NA LUTA DE 32 EM ITARARÉ Na verdade, quem narrou o que realmente aconteceu, foi o Dr. João Batista Ferreira Lobo, Tenente Ni Lobo, porque, participando da revolução como telegrafista viu tudo muito de perto. E contava: "Estávamos garantindo a resistência, mas sabe o que fizeram? Mandaram a gente se retirar para armar uma defesa estratégica no Vale do Paranapanema. A ordem partiu do Coronel Christiano Klingelhoefer, um alemão ex-combatente da primeira guerra. Eu o vi justificar: Os franceses recuaram até o Marne e ganharam a guerra; por que não podemos recuar até Paranapanema? " Irados, soldados e voluntários obedeceram. Itararé, desguarnecida, foi invadida pelas tropas do Sul. Os constitucionalistas deixaram seus postos e começaram a retirada geral; alguns soldados retiraram-se chorando por terem que abandonar o campo de batalha. A Força Pública seguiu de trem e os voluntários do Batalhão 14 de Julho seguiram a pé para Ibiti. Depois foram embarcados em um trem de carga. Era o dia 18 de julho de 1932 Supõe-se que o comandante tenha ordenado a retirada, julgando a perigosa situação de cerco em que ficaria a cidade, já que as tropas inimigas, afastando-se para o Sul, penetraram por terra no Município, depois da nascente do rio Itararé ou antes, nos trechos onde era possível a travessia do rio. Gaúchos que se desviaram para o Norte também o atravessaram, penetraram nos sítios e fazendas deixando a destruição por onde passaram. PISANDO O CHÃO DOS PAULISTAS Com a retirada das forças constitucionalistas de Itararé ficou aberta a mais importante porta de entrada para São Paulo. A ocupação da cidade pelo inimigo foi a grande perda da Revolução porque contribuiu para enfraquecer o ânimo dos paulistas e fortalecer os gaúchos. A perda de Itararé foi o início da derrota da Revolução de 1932, porque tratava-se de um baluarte paulista considerado invencível, além de palco da defesa da legalidade na revolução de 30. Com a ocupação de Itararé, o inimigo, fortalecido, sentiu-se vitorioso pisando o chão de São Paulo e triunfante por vencer esse famoso obstáculo, ganhou mais coragem para enfrentar os paulistas em outras frentes de batalha. TRAIÇÕES Falou-se muito nas traições então havidas - a de um oficial covarde, que voltando de uma missão de reconhecimento mentiu sobre o que havia visto, dizendo serem aliados, quando na verdade sabia serem gaúchos, os soldados que estavam avançando e, também houve tentativa de envenenamento da comida no acampamento dos paulistas. O conhecido historiador Hélio Silva, em seu livro "A Guerra Paulista", narra que "o Prefeito soltou foguetes procurando assinalar o campo de aviação para o inimigo". AUGUSTO DE SOUZA QUEIROZ - COMBATENTE DE 32 EM ITARARÉ Em seu livro "Batalhão 14 de Julho - Revolução Constitucionalista de 32", Augusto de Souza Queiroz narra o seguinte: "Nas trincheiras, os soldados da Força Pública, atacados por um inimigo muito superior em número, bombardeados violentamente pela artilharia e abandonados por vários de seus chefes, que desertam de seus postos, sentem-se desnorteados e incapazes de resistir ao ataque. A despeito das posições magníficas que ocupam, onde um homem bastaria para deter vinte, haviam deixado a infantaria inimiga progredir até as proximidades da fronteira. E contudo tinham visto distintamente os chapelões de aba larga dos soldados da brigada gaúcha que avançava, procurando envolver posições paulistas. A princípio nem sequer tinham atirado sobre eles porque um oficial, pouco antes de abandoná-los, afirmara que aquelas tropas eram nossas, regressando de um reconhecimento. Era a traição torpe e covarde, que começava a sua obra nefasta. Somente quando o inimigo, já muito próximo, desencadeia violentíssimo ataque, compreendem os nossos soldados que haviam sido traídos por seus oficiais." No dia 19 de Julho as forças do Governo ocuparam Itararé, sendo então nomeado Prefeito o jornalista Walfrido Rolim de Moura, proprietário e diretor do Jornal Sul de São Paulo, órgão simpatizante do governo. Houve sempre muitas dúvidas. Itararé caiu ou foi entregue ? O jornal " Folha da Manhã" de 26 de Julho de 1932 fala sobre uma sindicância instaurada para apurar responsabilidades, da qual não se soube os resultados. Muitos livros falam de nossa história, mas a verdade é essa que aí está. ........................................................................................................................ ...... Quando soubemos que o pior já havia passado, resolvemos voltar para casa. Saímos de Faxina à 1h da manhã, viajando num trem de soldados, os quais faziam enorme algazarra cantando o tempo todo, um sucesso carnavalesco da época: Nega do Cabelo Duro. À cada estação, o nosso trem parava e ficava aguardando os comboios vindos do Sul, trazendo mais soldados. Ali ficávamos parados, às vezes, bem mais de uma hora. A viagem que leva hoje uns 30 minutos de carro, levou todo o resto da noite. Chegamos a Itararé às 4h da manhã, cansadíssimos. Ao abrirmos nossa casa tivemos uma surpresa as galinhas transitavam livremente, por toda parte, acompanhadas de grande quantidade de pintinhos novos; havia cocô de galinha na casa inteira e uma boa quantidade de ovos em vários lugares, até mesmo em cima do colchão. Não havia possibilidade de se dormir ali. Lavamos toda a casa antes do sol nascer e, como estávamos cansados e com muito sono, resolvemos abrir a casa de meus pais para podermos dormir. Felizmente, nada havia acontecido em nossas casas; outras pessoas não tiveram a mesma sorte. CONSEQUÊNCIAS Então começaram a aparecer os danos causados pela revolução. Muita gente perdeu tudo o que tinha. Suas casas foram arrombadas, os móveis quebrados e espalhados pelo chão; casas de negócio foram saqueadas, tudo muito triste. Nossa cidade possuía dois Jornais: "O ITARARÉ", pertencente à família Tatit, teve sua redação e gráfica destruídas; o outro, " SUL de São Paulo", que pertencia ao Getulista Walfrido Rolim de Moura, nada sofreu . Com a cidade ocupada, os gaúchos estavam em toda parte. Os soldados inimigos causaram prejuízos aos sitiantes e fazendeiros de muitas maneiras: roubando animais de montaria e matando outros para comer ou só por diversão, além de barbaridades que faziam contra as pessoas. . . FIM DA REVOLUÇÃO A revolução terminou no começo de outubro e houve verdadeira alegria porque foi o fim daquele tormento. Porém, a vida demorou a voltar ao normal; os soldados só foram se retirando aos poucos. As pessoas que fugiram regressaram às suas casas, e também o comércio foi voltando ao que era antes. Muitas famílias retiraram-se definitivamente da cidade. Não queriam continuar morando num lugar tão perigoso. Num espaço de apenas dois anos, duas revoluções; isso era demais. Procuraram lugar mais seguro e mais calmo para residir; tiveram medo de que qualquer movimento político viesse a repetir-se novamente A DERROTA - CONSIDERAÇÕES A revolução Constitucionalista foi derrotada pelas forças do Governo. Isso porque São Paulo não estava preparado para a luta armada e também, porque lutou praticamente sozinho contra os outros Estados. Somente a Região Sul de Mato Grosso, comandada por Bertoldo Klinger, acompanhou São Paulo. Muitas vidas foram perdidas e os prejuízos foram imensos, mas a tão desejada Constituição foi feita dois anos depois. Consideramos ter sido uma grande felicidade que as lutas e grandes combates da revolução de 1932 não tenham acontecido em Itararé, evitando-se a perda de muitas vidas e a destruição da cidade. Deus, com toda certeza, tem Seus olhos voltados para nossa terra. Por duas vezes afastou o perigo - na Revolução de 30, quando estava determinada até a hora do ataque, e na Revolução de 32, quando decidiram o derramamento de sangue longe de Itararé, pois os paulistas continuaram lutando por mais três meses. Embora apontada depreciativamente como a a cidade da "Batalha que não Houve" (1930), como se tivesse aquele fato diminuído o seu valor, Itararé está coberta de glória por ter sido palco da defesa da legalidade. Já é tempo de orgulharem-se os itarareenses, de nossa histórica e valorosa cidade.
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