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Elos Clube de Itararé
Crônicas


ESTRANHO VISITANTE

Dorothy Jansson Moretti


Nossa querida Rua São Pedro já foi passagem obrigatória de tudo que vinha do Sul: gente, veículos, tropas de mulas, de bois...
Nas décadas de quarenta e cinqüenta eram os possantes caminhões que por ela trafegavam, carregados de toras ou de tábuas, dia e noite, ininterruptamente. Lembro-me de que o solo trepidava tanto que as lâmpadas das casas e até mesmo dos postes chegavam a afrouxar-se nos soquetes.

Mas bonito mesmo eram as tropas! Periodicamente passavam mulas por nossa rua, enchendo-a com seus ruídos, com o soar da campaínha da "madrinha" e as vozes de comando dos tropeiros. E muita poeira também.

Nossa casa - já que meus pais eram "suecos gaúchos", era o ponto de parada para o chimarrão desses homens. Muitos deles eram velhos conhecidos de meus pais. Possuíam estranhos sobrenomes italianos: Andrighetto, Bortolotti, Sperotto.

Usavam os trajes dos gaúchos. "pilchados"(segundo expressão deles mesmos) a cabeça aos pés, com aquela garrida indumentária. O que mais me chamava a atenção eram as bombachas: amplas, longas e bordadas nas laterais, da cintura até as botas, com requintado ponto de casinha de abelha. Original aquele toque meio feminino em traje de gente de ocupação tão máscula!
Eles entravam para cumprimentar papai e mamãe e trazer notícias dos parentes dela, lá do Rio Grande. Sentavam-se para uma alentada folga e ficavam contando novidades do Sul.

Quantas cuias de chimarrão carreguei para essa gente! E como eu gostava daquilo! Fascinavam-me como se fossem do outro mundo, com aquela roupa toda "incrementada"...

Certa ocasião, numa passagem de bois, aconteceu um fato bastante pitoresco. Um dos animais, saindo da fila, embarafustou-se pelo nosso corredor, em direção à sala-de-jantar. A porta da sala era de duas folhas e uma delas estava aberta. O boi enfiou a cabeça pelo vão, mas ficou preso pelas apas. Mamãe, que estava vindo do interior da casa, ao deparar com o animal ali entalado, levou enorme susto!
- Claro, gritou ela, chamando por meu pai.
Ele veio depressa, mas... o inusitado da situação deixou-o sem expediente. O que fazer? Afinal, a gente sempre achava que um boi era feroz...

Nisso, um dos boiadeiros apareceu, para alívio geral. Ele vira o fujão desgarrar-se e entrar em nossa casa. Pedindo licença, abriu a outra folha da porta e liberou o intruso que - manso como um cordeirinho - seguiu-o docilmente em direção aos companheiros.

E o resto da tropa continuava pachorrentamente seguiu o seu caminho, sem nem sequer tomar conhecimento daquela estranha aventura frustrada...

ESTUDANTADA


(do livro Pense Comigo - Prof. Samuel Barbosa)

Estudávamos num colégio em Jandira, subúrbio de São Paulo em 1954. O sistema era de internato. Morávamos em quartos pequenos, com dois beliches, uma mesa pequena e duas cadeiras para quatro alunos. Entre os beliches ficava um estreito corredor com uma janela em frente. Luz elétrica só até às vinte e três horas, pois nessa hora os motores eram desligados e, daí em diante, somente com lampião é que se podia estudar - naquele tempo ainda se estudava.

Pegado ao nosso quarto moravam quatro colegas, todos boas praças, grandes caras, divertidos, gozadores e amigos..
Uma noite esses colegas foram ao cinema em Osasco e só voltaram à meia noite com o último Carmem Miranda que é como eram chamados os trens de subúrbio.

Ficamos no refeitório estudando, até se apagarem as luzes, e então fomos para o quarto continuar estudando à luz de lampião.
Quando passamos em frente ao quarto dos colegas, que tinham ido ao cinema, vimos um burro velho dormindo no pátio. Com um pouco de esforço e de força, empurrando no trazeiro e puxando no dianteiro, conseguimos botar o burro no quarto dos rapazes, pensando talvez que um a mais não ia alterar nada. Depois de fechada a porta, o quarto ficou literalmente tomado. Fomos então para o nosso quarto estudar e... esperar o rebuliço por vir.

Dali a pouco chegaram os rapazes conversando, comentando o filme e batendo nas portas dos quartos dos colegas, que já estavam dormindo. O primeiro esforço para abrir a porta resultou inútil. Sem saber o que estava impedindo a porta de abrir-se, um deles enfiou um braço pela pequena fresta conseguida e exclamou: - Nossa! Tem um boi aqui dentro, boi ou burro, não sei.

Depois de grande confusão, depois de acordar todo mundo dos quartos vizinhos, isso lá pelas duas da manhã, alguém sugeriu que entrassem pela janela. Dois deles entraram pela janela e, de dentro, tentavam puxar o burro enquanto os de fora tentavam abrir a porta. Tudo inútil, porém! O burro estava dormindo e nada melhor do que um quarto para isso, deve ter pensado o burro! Quase uma hora de lutas de dentro e de fora do quarto para fazer o burro deixar a porta abrir-se.

Foi quando alguém sugeriu que desarmassem os beliches. O burro foi então virado dentro do quarto e, meio carregado foi posto para fora. Os rapazes conseguiram então, depois de armados novamente os beliches, dormir um pouco, pois dentro em breve lá estava o sino tocando, chamando para as aulas.

No outro dia, ou melhor, naquele mesmo dia, um pouco mais tarde, quando comentávamos o acontecido, procurando descobrir quem poderia ter tido a idéia de colocar um burro no quarto, onde já estavam outros quatro morando - diziam os colegas com humor, alguém saiu-se com esta, que serve como moral da história:- colocar um burro em qualquer lugar é fácil, o difícil é o bicho sair de lá.




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O QUE VOCÊ VAI SER, QUANDO CRESCER?

Silas Corrêa Leite



Eu, malemal tinha lá meus cinco ou seis anos, muito precoce e bendito fruto (nascido entre mulheres, de várias irmãs a mãe, vó e tias), e não me lembro quem, perguntou-me, fazendo tipo de aprecio: - Piá, o que você vai ser quando crescer? Eu, pequenino de tudo, calças curtas (com suspensórios) de morim-cambraia, com amarelão (água de poço)podia dizer engraxate, vendedor de dolé de groselha preta, bóia-fria, essas coisas, mas fiz panca de sabido e respondi na bucha: - Quando eu crescer eu vou ser Presidente do Brasil. Foi um pandareco. Minha mãe, rasgando couve-manteiga na rala sopa de fubá (éramos pobres na periferia cor-de-rosa de Itararé, começo dos anos 50), me olhou e disse: - Entojado! Minha irmã Erzita, lendo a revista Sétimo Céu, buliu feliz, fã de carteirinha: - Que gracinha! Sueli, sempre da pá virada, fazendo bolinho de chuva pra sobremesa, de tromba, berrou: - Estrupício! Clarice, tranças crespas de cabelo de talharine, ensaiando uma balada de incêndio, sondou, saiu-se de si e nem maroteou: -Você vai ser tudo o que você batalhar para ser. Bingo!

Meu pai, com sua voz de trombone-contrabaixo, com o diapasão na mão tentando afinar o violino encardido de suor e viagens, mediu minha banca de metido a Flecha Ligeira (personagem de gibi desses tempos), riu-se com contenteza pegajenta e, antes de sair pra fazer o programa diário na Rádio Clube de Itararé ainda praguejou: - Esse guri vai longe!
(Longe é um lugar que não existe?)

PRESIDENTE? - "Nem por força", diria minha Vó Maria dos Prazeres Guimarães, com suas tranças de filha de escrava angolana. Não botei muita fé nisso. Fui bóia-fria por um dia (fiz calos gordos na mão de "manteiga derretida"), fui engraxate mas não tinha ritmo (e nem lustro). Até que fui ser aprendiz de marceneiro, peguei tino, me assuntei, e ali, nos pedaços de compensados de peroba-brava, escrevi meus poemetos pueris, inventei meus personagens, mal me lixando, na verdade, em querer saber o que iria mesmo ser quando crescer...
Fiz Direito, fiz Geografia, contestei a Ditadura incompetente, violenta e corrupta. Ganhei ficha nos porões dos podres poderes, morei em pensões, passei fome. Sempre escrevendo e tomando umas cervejas (meu único vício). Isso depois que, em l970 - sem dinheiro no bolso, sem parentes importantes - como na canção de Belchior - migrei para Sampa, visando servir o Exército, do qual fui dispensado não apenas por ser pé chato, mas também por ser arrimo de família.

A vida dá um nó na gente.
Será que, quando nascemos, já temos um programinha neural de destino alavancando o psico-somático da gente? Andei matutando essa possibilidade. Viver é lutar.
Longe de casa, saudades do luar de Itararé, da orquestra de galos, grilos, sapos e cigarras de minha aldeia natal, do vento lascando xotes nos altos pinheiros, escrevi feito um condenado à vida. Escrevi para não ficar louco. E poetizei em verso e prosa: "Minha terra tem palmeira/Onde canta a gralha azul/E fica na rabeira/De São Paulo, bem ao Sul" - ou: "Se Deus é brasileiro/Jesus Cristo também é/Deus do Rio de Janeiro/E Jesus de Itararé" - Mas a que eu mais gosto é uma quadrinha: "Eu sou pobre, pobre, pobre/De marré, marré, marré/Mas eu tenho a alma nobre/Pois eu sou de Itararé..."

Ler, estudar, somar, crescer. Ser alguém na vida, sem perder a ternura, jamais.
Meu pai morreu - faz vinte anos que não comemoro o Dia dos Pais - venho tentando realizar minha Lenda Pessoal (lançar meus trabalhos premiados em prosa e verso, inclusive inéditos romances formatados), ainda não comprei casa, tive meus vários cinco minutos de mídia, consto em mais de 40 antologias, até no exterior, estou para me aposentar como Educador da Rede Pública, tenho um filho (Thiago Frederico), as mulheres que não me amaram foram infelizes para sempre, meus sobrinhos me adoram, os alunos eu cativo. A maior vingança é ser FELIZ ?

Presidente? - Como se diz em minha terra: - É bem garapuava! - Chamar "quem" de nobre colega? - É bem perigoso! Prefiro falar desse holocausto nas ruas, num país que está entre as dez maiores economias do mundo, e do propagado "sucesso do Plano Real" (propaganda enganosa). Temos cinqüenta milhões de pessoas (brasileirinhos) morrendo de fome, indigentes. E ninguém fala nada? E ninguém diz nada? Temos um cotidiano Vietnã no Brasil. Só em Sampa morrem cem pessoas por semana.Uma guerra civil disfarçada. Segundo pesquisa da FAO (ONU), a qualidade humana de vida - acredite, se quiser - na Colômbia é melhor do que no Brasil! O salário-mínimo no Paraguai é 150 dólares. E o FHnistão vive rindo. Pra nós? De nós? Os banqueiros e agiotas do capital estrangeiro a-d-o-r-a-m!

Vinícius de Morais bem cantou: "Pátria Amada/Pátria minha/Pátria nada/patriazinha..." - E os picaretas do Congresso?. Quem é que vai pagar por isso? É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã? Cazuza ainda cantou: -"Transformaram o Brasil num enorme puteiro/Porque assim se ganha mais dinheiro..." - Eu escrevo, delato. Feito uma antena da época, para lembrar Rimbaud. O Brasil não é um país sério, dizia De Gaulle.

Em algum lugar do passado, cortei minha infância pela metade (para ir trabalhar); minha juventude foi dura e difícil, e agora, beirando os 50, sonho com uma casa no campo, um lago manso entre lavandas, galos, noites e quintais.
Pergunto pros meus alunos, que não querem se empenhar nos estudos: - O que você vai ser quando crescer?
Riem. Fazem pitos e glosas entre si. Faniquitos. Um quer ser pagodeiro, outro jogador de futebol, outro aceita que será camelô (se sobrar espaço), outros brincam: Traficantes. Fico triste. Há quem fale sério: - Vou ser astronauta, trabalhar na Nasa. Outros: - Vou ser Médico, Arquiteto, Engenheiro, Economista.
Uma disse, certa feita (será que foi pra me agradar?) que iria ser PROFESSORA. Calei fundo. Não disse nada. Mas ela deve ter notado as lágrimas se segurando no devir de meus olhos surpresos e tristes. Um país se faz com homens e livros? Bela frase. Hoje? Com fome e gringos...

Mas, engraçado foi, quando cobrei de uma adorável sobrinha, sobre o que ela iria ser quando crescer. E já antevi uma possível reposta: -Bailarina, Pintora, Cantora de Jazz, Atriz da Globo, Cientista, Socióloga.
Pois a Belinha Jordani me sondou de butuca, fez panca, vaidosa, me enfocou algo detravessada, sorriu de abrir a alma, e respondeu (maroteando?), vejam só:
- Quando crescer eu quero ser GENTE GRANDE!






AS ESTREPOLIAS DE JOÃOZINHO

(do livro "Vivendo" - Cecília Duarte Fogaça)



Joãozinho, meu marido, de vez em quando fazia umas estrepolias.
Certa vez ele implicou com o cachorro do vizinho, dono de uma tinturaria em frente à nossa casa, porque o bicho latia muito durante a madrugada acordando a gente. Além disso, durante todo o dia, o cachorro latia e avançava nas pessoas que passavam. Numa tarde, quando o cachorro estava na rua assustando as pessoas e latindo como sempre, Joãozinho ficou com raiva e disse:
É hoje !...

Pegou um estilingue, foi até a calçada, certificou-se de que ninguém estava olhando, fez pontaria e zás !... Atirou uma pedra no cachorro para assustá-lo.
O cachorro esperto, só de ver a pontaria fugiu; mas a pedra, lançada com muita força, bateu na calçada, pulou para dentro da tinturaria e foi quebrar um grande quadro de São Pedro que estava na parede. O quadro caiu em pedaços fazendo enorme barulho. Joãozinho se assustou. O dono da tinturaria, rápido como um raio correu à porta para ver quem tinha atirado a pedra.
Joãozinho, ainda assustado com sua proeza, encostado à parede e com as mãos para trás procurava esconder o estilingue.

- O senhor viu quem atirou a pedra no meu santo protetor ? explodiu o tintureiro, vermelho de raiva.

- Não vi ! Levei um susto com o barulho e vim ver o que estava acontecendo. Deve ser algum moleque que anda matando passarinhos por aí.

- Ah ! Se eu pego esse moleque ele me paga ! Malandro !...
O tintureiro não desconfiou dele, pois além de vizinhos, eram bons amigos. Conversaram ainda um pouco sobre os moleques malandros que andavam pelas ruas e, disfarçando, sempre com as mãos escondidas, Joãozinho tratou de entrar em casa. Desapontado com o estrago que havia feito e aborrecido por ter causado prejuízo ao amigo, ele falou:

- Não queria fazer isso. Foi sem querer. Mas, mesmo que eu quisesse fazer novamente, não iria conseguir. Foi um acaso. Fiquei amolado com isso.
Depois, seus olhos brilharam e ele sorriu amarelo.
- Mas foi gozado. Coitado do meu amigo !




O AVIÃO


( do livro Batalhas de Itararé- de José Maria Silva)

Nos anos 50 a grande fase da madeira entre outros luxos, Itararé possuía os Serviços Aéreos Cruzeiro do Sul. A empresa fazia escalas diárias em nossa cidade. Segundas, quartas e sextas para Curitiba, com escala em Telêmaco Borba, terças, quintas e sábados para São Paulo. Bons tempos... aviões lotados, passageiros de todos os tipos...
Fazendeiros, funcionários públicos, madeireiros, assalariados, comerciantes...

E por falar em comerciante, o Nélson Ferrão era um dos assíduos passageiros da Cruzeiro. Com sua loja de armarinhos na praça São Pedro, todo mês ele ia até São Paulo para comprar na 25 de Março.
Naquela bela e ensolarada manhã de terça-feira, o Ferrão estava atrasado. Já tinha perdido a perua do Orlandinho, o jeito foi apelar para um carro de praça.

No volante de seu chevrolet 40, o Mário Libanio dormia no ponto (São Pedro). Acordou com o grito do Ferrão do outro lado da rua:
- Mário, rápido pro campo daviação!

Encheram o bagageiro de malas e lá se foram. Em frente à caixa d água, o chevrolet tossiu, o Ferrão consultou o relógio, o Mário puxou o afogador...
Ao passarem pela Capela do Divino, nova tossida, aliás, duas, o carro quer engasgar, o Ferrão torna a conferir as horas... Uma segundinha, um tranco e a vida, ou melhor, a corrida continua.

Na passagem de nível da Sorocabana, o solavanco, o carburador do Quarentinha pede gasolina, começa a sororoca... Num último estertor, ele dá dois corcovos e estaqueia bem em frente à porteira de arame... O tanque secou!

Instintivamente os dois saltam do carro. Lá no hangar cerca de 300 metros dali ouve-se o ronco do Douglas pronto para a partida. Não há tempo a perder. O Ferrão se encarregou das malas, o Mário não pensou duas vezes, abriu a porteira e invadiu a pista.

De braços abertos e boné na mão, corajosamente foi ao encontro do avião que taxiava para a decolagem.
Como um bom chofer de praça, o piloto atendeu aos acenos desesperados do Mário e esperou pelo Ferrão.
O freguês em primeiro lugar. Pode faltar gasolina, mas não a coragem.